Paisagem | 2015 | Gilson Rodrigues Paisagem | 2015 | Gilson Rodrigues Paisagem | 2015 | Gilson Rodrigues

Paisagem, 2015

vontade, liberdade; coisas e fundos

estrutura, plasticidade; elementos e mundo

 

Gilson Rodrigues trabalha sob um desejo bastante intenso com a pintura e o desenho, misturando-os sob o domínio da primeira; sua produção exala visivelmente esse investimento. Muitos artistas nascidos depois dos anos 80 – e que estudaram com outros que iniciaram seu trabalho a partir dessa década, representada principalmente pelo slogan da volta à pintura – não carregam o peso da pergunta sobre a validade desse meio: eles simplesmente pintam, com muito prazer, convicção e crescente competência.

 

E é exatamente assim que penso que o trabalho com a arte deva acontecer. Essa naturalidade precisa, evidentemente, nutrir-se de outras ações, de uma meditação ativa permanente, de um esforço produtivo sem fim, etc e tal; mas o gosto pela coisa é essencial. Considero esse gás como um trunfo, um ganho muito importante, pois nossas preocupações devem ser de outra ordem. No campo da arte, as questões sobre o que fazer não tem grande sentido, pois como fazer importa muito mais. Já temos a liberdade de fazer de tudo, inclusive essa (ou aquela) de pintar.

 

O trabalho do artista aqui, portanto, exibe sua vontade e liberdade, em sua estrutura e plasticidade, como valores intrínsecos da linguagem que compõem a imagem sobre os suportes; à nossa vista, nada se esconde – voluntariamente – de sua dupla condição. A mancha verde é a copa de árvore; a pincelada ondulante é o perfil de morro; o azul manchado de branco é o céu com nuvens; a pincelada longa ascendente/descendente é o tronco de árvore sombreado; e assim por diante. Historicamente, é bom lembrar que já se pretendeu que esses elementos se confundissem de (alguma) maneira mais verossímil com aquilo que compõe o mundo – representando-o ou se passando por ele – e o resultado nem sempre foi tão interessante; prefiro a operação de Gilson.

 

A contemporaneidade produziu diferenças e o que hoje dividimos através das imagens é a curtição de sua natureza, no sentido de sua condição de base de potencia reflexiva. A variada exploração dos cânones da apresentação pictórica, como essa aparente destruição da representação tradicional, me parece – acima de tudo – uma declaração de afeto genuíno pelo trabalho da arte. A experimentação real e produtiva – sem leis – só se dá no campo de um interesse e curiosidade realmente profundos por uma matéria. É como o conhecimento e a exploração de outro ser, que só se desencadeiam pelo amor, pela amizade, pela admiração.

 

É interessante lembrar algo daquela “má-pintura” (a bad painting) que surgiu na passagem dos anos 70 para os 80, que hoje se mistura com questões com questões da “pintura dos campos de cor” (a color field painting) que a desmontava nos anos 40, para comentar o vigor que reconheço nessa leva de pintores e pinturas que não deixa um sentido de investigação da obra muitas vezes transgressor, se confundir com irreverencia. É importante lembrar que o respeito, em seu sentido tradicional, não cabe no espaço da arte; vivemos e sobrevivemos no campo de atravessamentos (ou como diriam outros, de culto, algo sagrado), em reverencia afinal, sob uma espécie de veneração atávica, sem a qual o grande jogo termina definitivamente para todos nós. Ao manter a consciência do trabalho acesa no trabalhar, o puzzle se ativa sábia e generosamente, e o outro – o tal espectador/expectador – se torna mais próximo do artista, mais afeito (e por que não, amoroso) à obra.

 

Voltando aos objetos representados e às imagens de Gilson Rodrigues (reinvocando as paisagens em seus corpos decorados), é dessa maneira que elas interrompem o idílio das visões campestres em formação planar e nos solicitam a sutil lembrança do aqui/agora: isto não é um cachimbo, atenção; trata-se de tinta sobre tela e isso é uma pintura. Esse quadro quer nos levar ao espaço do próprio trabalho; essas obras (acompanhadas pelo elaborado catálogo) nos oferecem também a chance refletir ao ver. Então, esmiúce as obras, reveja as imagens do balcão do ateliê, dos muros de fundo da sala de trabalho do artista – da cabeça do autor, do mundo imaginário do pintor – em que as paredes são as telas, quando as bandejas são os canteiros arrumadinhos dos jardins franceses, antes guardados nas cristaleiras maternas, agora fáceis nas lojinhas do centro da capital, vulgares e divertidas Made in China (via Paraguai), em torno de todos nós, em nossos interiores mestiços, iluminados e obscuros (cada um, de vez em quando). Repare como o artista aborda os temas através dos objetos que o rodeiam, através da vida da própria obra, agora exposta. O périplo que ele nos propõe é o nosso trajeto cotidiano, atravessado pela clara tensão entre brutalidades e delicadezas, na qual vivemos.

 

A paisagem do artista aqui – que também é nossa enfim – é como um terreno de múltiplas e imensas possibilidades, como um suporte planar permanente da supravisão, com a própria linguagem em constante curso, e não apenas um tema de eleição propriamente dito ou simples erudição. Os riscos, as pinceladas, as cores, as sombras, os objetos e suas figurações devem se apresentar sobre algo… E daí, isso tudo é como um pano-de-boca teatral, plano/projeto meio perverso sobre suas referencias (o mundo das referencias da própria pintura); ou seja, o mundo da melhor pintura-pintura, que evoca a celebração da arte ativa, como seu discurso sobre coisas e fundos (por exemplo), elementos e mundo, nesse caso. É o trabalho da arte, esse imutável moto-perpétuo entre o homem e a natureza, sempre flagrado na paisagem.

 

Mário Azevedo / Março de 2015

 

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