Jardins Suspensos | 2016 | Gilson Rodrigues Jardins Suspensos | 2016 | Gilson Rodrigues Jardins Suspensos | 2016 | Gilson Rodrigues Jardins Suspensos | 2016 | Gilson Rodrigues Jardins Suspensos | 2016 | Gilson Rodrigues Jardins Suspensos | 2016 | Gilson Rodrigues Jardins Suspensos | 2016 | Gilson Rodrigues Jardins Suspensos | 2016 | Gilson Rodrigues Jardins Suspensos | 2016 | Gilson Rodrigues Jardins Suspensos | 2016 | Gilson Rodrigues

Jardins suspensos, 2016

Sobre nostalgia e pintura

Não importa se nascemos numa cidade grande ou num longínquo vilarejo, nas nossas evocações, o céu de nossa infância é sempre azul e os campos são sempre verdejantes. As pequenas casas onde moramos se agigantam na lembrança e os quase sempre modestos armários de louças se transformam em depositários de tesouros esplêndidos. Quando criança, Walter Benjamin gostava de pintar tomando como modelos as porcelanas chinesas de sua casa, nas quais uma camada multicor cobria cada vaso, vasilhame, prato, tigela… Fascinado pelas porcelanas baratas, adentrava nos seus azuis e laranjas, seus verdes e vermelhos, seus amarelos e púrpuras, deslizava nos delicados filetes dourados. As pinturas de Gilson Rodrigues se expandem nesse espaço-tempo do sonho ou do devaneio. Nelas, paisagens e objetos flutuam como se uma ventania, vinda do passado ou da memória, os estivesse distanciando de nós. Imersos no turbilhão, não podemos detê-los nem deter-nos. Giramos com eles que, às vezes, se definem em contornos nítidos e cores sólidas e outras aparecem apenas como esboços, linhas delicadas que se conformam numa xícara, numa chaleira, num vaso de flores. Rastros de talheres ornamentados deixam marcas sutis e se entranham na paisagem que, por causa deles, deixa de parecer natural e se escancara como a construção cultural que sempre foi. Aparentemente, o trabalho de Gilson tem como tema principal a pintura de paisagem e a de natureza morta. É um trabalho de gabinete de colecionador de estampas no qual a natureza se insere insidiosa, como uma força destrutiva que não pode ser evitada. Uma arte de ruínas onde, a cada momento, o artista nos adverte sobre o supremo artifício de seu fazer. Massas sólidas e chapadas de cor densa e opaca e empastes grumosos de cores vibrantes alternam entre as delicadas campinas, sobre a relva viçosa, nos céus de azuis líquidos. Essas interferências de pura pintura agem como um anteparo que frustra nosso desejo de ensimesmarmos nos espaços aéreos e aquosos que o artista propõe. Há uma ausência, porém, que se adivinha além das visões que o artista nos oferece e que, talvez, seja o verdadeiro assunto destas pinturas. Nas imagens que perambulam entre uma e outra pintura estão os campos e os rios, os céus e as árvores, as mudas, os vasos e as flores, um casal de proprietários sem rosto, as xícaras e os talheres … Mas onde estão os armários, os móveis, onde está a casa? A palavra nostalgia, estado de tristeza causado pela distância do lar, foi criada pelo médico suíço J.J. Harder, em 1678. A nostalgia é um sentimento de perda e deslocamento, é a saudade de um lugar que não mais existe ou que nunca existiu. A imagem da nostalgia, afirma Svetlana Boym, se constitui como uma superposição de duas imagens: o solo natal e o estrangeiro, o passado e o presente, o sonho e a vida cotidiana. Ao intentar conjugar essas imagens em uma, a moldura explode e os fragmentos se espalham. Gilson Rodrigues nos oferece, nos seus trabalhos, o instante da dispersão. 

 

Maria Angélica Melendi / 2016

 

[Clique aqui para acessar o catálogo virtual]